DA REDAÇÃO
Operação “Em Nome do Pai” investigou suspeitas de fraude em licitações; quase dois anos depois, permanecem questionamentos sobre o andamento do caso e o retorno de investigada à estrutura da Prefeitura
ARAGARÇAS (GO) — Em 19 de setembro de 2024, a Polícia Civil de Goiás deflagrou a Operação “Em Nome do Pai”, para investigar suspeitas de fraude em processos licitatórios da Prefeitura de Aragarças.
Segundo informações divulgadas pela Polícia Civil à época, a investigação apontava para a atuação de servidores públicos e empresários, com suspeita de criação de empresas de fachada e direcionamento de contratos. Um dos investigados era filho de um secretário municipal e, conforme a investigação policial divulgada naquele momento, utilizaria a influência do pai para obter livre trânsito dentro das repartições públicas.
INVESTIGAÇÃO NA DELEGACIA DE CRIMES CONTRA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
Segundo informações obtidas pelo Mais Araguaia, a investigação relacionada à Operação “Em Nome do Pai” encontra-se na Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra a Administração Pública (DERCAP), em Goiânia, unidade especializada da Polícia Civil de Goiás na apuração de crimes contra a administração pública.
A permanência do caso na unidade especializada aumenta a expectativa por respostas sobre o andamento das apurações e sobre eventuais conclusões decorrentes das diligências realizadas desde a deflagração da operação, em setembro de 2024.
CELULARES APREENDIDOS E A PERÍCIA
Entre os elementos apreendidos durante operações dessa natureza estão aparelhos celulares, documentos e outros dispositivos que podem contribuir para a reconstrução de contatos, conversas e movimentações relacionadas aos fatos investigados.
No início das investigações, o Mais Araguaia obteve informações junto ao delegado titular da Delegacia de Polícia Civil de Aragarças, Dr. Fábio Marques, sobre os procedimentos de perícia dos aparelhos celulares apreendidos durante a operação. Na ocasião, foi informado que ferramentas de perícia digital poderiam ser utilizadas para auxiliar na extração e análise de dados armazenados nos dispositivos eletrônicos. Entre as tecnologias reconhecidas internacionalmente para esse tipo de trabalho está o Cellebrite, utilizado em processos de extração e análise forense de dados de celulares.
SERVIDORES FORAM AFASTADOS
Após a operação, a Prefeitura informou que servidores municipais alvos da investigação foram afastados e que foram instaurados Processos Administrativos Disciplinares (PADs) para apurar suas condutas.
Quase dois anos depois, porém, o caso continua provocando questionamentos.
INVESTIGADA TERIA RETORNADO À PREFEITURA
O caso ganha ainda mais repercussão diante da informação de que uma das pessoas investigadas, que teria sido exonerada após a operação, voltou a integrar a estrutura da Prefeitura de Aragarças em meados de 2026, agora como nova servidora do CRAS — Centro de Referência de Assistência Social.
A situação, por si só, não representa condenação ou comprovação de qualquer irregularidade. Uma pessoa investigada permanece protegida pelo princípio da presunção de inocência enquanto não houver decisão judicial definitiva.
Mas a questão que fica para a sociedade é outra:
Quais foram os critérios utilizados para o retorno dessa pessoa à estrutura da administração pública enquanto a investigação permanece sob responsabilidade da DERCAP?
E O INQUÉRITO?
Se a investigação continua em andamento, é importante que isso seja esclarecido oficialmente.
A população tem o direito de saber se houve conclusão das perícias, se os Processos Administrativos Disciplinares foram encerrados, se houve encaminhamento ao Ministério Público ou se o caso permanece sob investigação.
CRIME COMPENSA?
É evidente que não cabe ao jornalismo condenar quem ainda é investigado. Cabe à Justiça decidir responsabilidades e eventuais crimes.
Mas é legítimo perguntar:
Se houve suspeitas tão graves a ponto de justificar uma operação policial, quais foram as conclusões das investigações?
O que aconteceu com os celulares apreendidos?
Os PADs foram concluídos?
Houve arquivamento?
Houve denúncia?
Houve responsabilização?
E por que uma pessoa que esteve no radar da investigação voltou a trabalhar na administração municipal?
Essas são perguntas de interesse público.
O SILÊNCIO TAMBÉM PRECISA SER EXPLICADO
O título desta reportagem é uma provocação jornalística:
“Em Aragarças, crime contra a administração pública compensa?”
A pergunta não acusa ninguém de crime. Ela questiona se, diante de investigações, afastamentos e suspeitas envolvendo a administração pública, a ausência de um desfecho conhecido pode transmitir à população a sensação de que nada acontece.
Se houve irregularidade, que os responsáveis sejam responsabilizados dentro da lei.
Se não houve crime, que os investigados tenham sua inocência reconhecida.
Se o inquérito continua em andamento, que isso seja informado oficialmente.
E se já terminou, que a sociedade conheça o resultado.
Porque o cidadão de Aragarças merece mais do que operações policiais que viram manchetes.
Merece respostas.
Mais Araguaia — jornalismo que pergunta o que muita gente prefere não responder.