DA REDAÇÃO
Em Aragarças (GO), a inovação chegou antes da solução. A cidade agora ostenta algo inédito no turismo nacional; Wi-Fi de alta qualidade em um atrativo que não existe mais. É o avanço da tecnologia aplicada ao vazio. Um feito.
A manchete oficial; “Planejamento antecipado da temporada de praia em Aragarças se fortalece com ações de conectividade do Governo de Goiás”; parece roteiro de comédia. Planejamento antecipado de quê, exatamente? Da ausência? Da interdição? Ou da memória afetiva de uma praia que hoje só sobrevive em fotos antigas e discursos otimistas?

A famosa Praia Quarto Crescente virou um conceito abstrato. Está fechada, interditada, judicializada e ambientalmente ferida. Mas agora, surpreendente; conectada. O turista pode até não pisar na areia, mas poderá postar nos stories que esteve em frente a uma placa de proibição; com sinal forte e estável.
Enquanto isso, o básico segue ignorado. O lançamento de esgoto sanitário no Rio Araguaia não é novidade, não é acidente, não é “dano recente”. É antigo, recorrente e conhecido. Já estamos em 2026, e o poder executivo municipal segue praticando seu esporte favorito; empurrar o problema com a barriga; ou melhor, com o discurso.
O Ministério Público Federal não achou graça nenhuma. A área foi interditada por degradação ambiental e ocupação irregular. Há ações civis públicas, fiscalização, exigência de plano de recuperação ambiental e ordem judicial mantendo tudo fechado até decisão final da Justiça. Ou seja; não é birra, é lei.
A Justiça Estadual, amparada pelo MPF, faz o que o município não fez; protege a margem do rio, impede novos danos e tenta preservar o ecossistema. Enquanto isso, a prefeitura investe em maquiagem digital, como se Wi-Fi fosse tratamento de esgoto, reflorestamento ou política ambiental séria.
Colocar internet em um espaço interditado não é planejamento turístico. É menosprezar a inteligência de quem entende de turismo, de meio ambiente e, principalmente, de quem mora aqui. Turista não é bobo, e o Araguaia não é palco para peça de ficção administrativa.
No fim, Aragarças entrega ao Brasil um novo produto turístico:
Wi-Fi rápido, praia inexistente e problemas antigos em alta resolução.
Uma verdadeira experiência imersiva; só não diga que é turismo.
