Da Redação
Aragarças (GO) – Quatro anos após ganhar repercussão estadual por conta do enterro de um idoso em uma cova improvisada fora dos limites do Cemitério Municipal, a situação da necrópole de Aragarças volta a ser alvo de questionamentos. Desta vez, as críticas partem do antropólogo urbano Jorge Cordeiro, responsável pela página “Antropologia Urbana”, que publicou uma série de análises sobre as condições estruturais, patrimoniais e ambientais do local.
O debate remete ao caso registrado em janeiro de 2022, quando a família de Aldenor Rodrigues de Souza, de 98 anos, denunciou que o idoso havia sido sepultado em uma área improvisada fora do cemitério. O episódio foi amplamente divulgado em reportagem da TV Anhanguera e do portal G1 Goiás, assinada pelos jornalistas Michel Gomes e Geovane Azara.
Ao revisitar o tema, Jorge Cordeiro afirma que a situação observada atualmente evidencia problemas históricos relacionados à expansão do espaço cemiterial e à ausência de planejamento urbano adequado.
Segundo o antropólogo, o crescimento do cemitério ocorreu de forma improvisada ao longo dos anos, resultando em sepulturas distribuídas sem critérios aparentes de organização e ocupação. Para ele, a falta de uma política pública específica para gestão cemiterial contribuiu para o esgotamento da capacidade do local e para situações extremas como a utilização de áreas vizinhas para novos sepultamentos.
Cordeiro defende que os cemitérios devem ser compreendidos como espaços de memória coletiva, capazes de preservar a história, a identidade e os vínculos culturais de uma comunidade.
Na avaliação do pesquisador, o estado atual do Cemitério Municipal de Aragarças representa não apenas um problema de infraestrutura, mas também um reflexo da forma como o poder público lida com a preservação da memória social.
“Sepultando a própria história”
Em suas análises, Jorge Cordeiro argumenta que a precariedade estrutural observada no local não pode ser atribuída exclusivamente às famílias dos falecidos. Para ele, a responsabilidade passa principalmente pela ausência de investimentos e de políticas públicas voltadas para a gestão do patrimônio cemiterial.
O antropólogo sustenta que o abandono progressivo das estruturas e a falta de padronização nos cuidados com as sepulturas acabam por comprometer a preservação da memória histórica da cidade.
Como proposta, ele sugere a criação de um Conselho Municipal da Memória Cemiterial, órgão que teria a função de acompanhar a preservação das sepulturas, organizar ações de conservação e discutir políticas públicas voltadas à valorização desse patrimônio cultural.
Descarte de resíduos gera preocupação ambiental
Outro ponto levantado por Jorge Cordeiro envolve o descarte de resíduos provenientes de exumações.
Durante visita à área de expansão do cemitério, o antropólogo registrou uma caçamba contendo restos de caixões, invólucros funerários e arranjos florais descartados após procedimentos realizados no local.
A cena chamou a atenção do pesquisador, que questiona qual é o destino final desse material e se existem protocolos adequados para sua destinação ambientalmente correta.
Embora tenha destacado não possuir informações sobre a eventual presença de restos mortais entre os resíduos observados, Cordeiro considera que a situação evidencia a necessidade de ampliar o debate sobre a gestão ambiental dos cemitérios e sobre o tratamento dado aos chamados resíduos cemiteriais.
Segundo ele, o descarte desse tipo de material em áreas abertas levanta questionamentos sobre sustentabilidade, saúde pública e respeito à memória dos falecidos.
Debate necessário
As observações feitas pelo antropólogo reacendem uma discussão antiga em Aragarças sobre a capacidade operacional do cemitério municipal, a necessidade de ampliação da infraestrutura e a adoção de políticas públicas permanentes para gestão, preservação histórica e destinação ambiental adequada dos resíduos gerados no local.
Enquanto familiares buscam garantir dignidade para seus entes queridos, especialistas apontam que a situação exige planejamento, investimentos e participação da sociedade para evitar que problemas já denunciados há anos continuem se repetindo.
A repercussão das análises de Jorge Cordeiro nas redes sociais reforça um tema que permanece sensível para a população: a forma como a cidade cuida de seus mortos também revela como preserva sua própria história.